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Experiência missionária intercalar em Timor Leste

Ser missionário não é uma profissão nem um estatuto, mas sim um modo de viver a vocação cristã. Há formas de cristianismo mais missionárias e outras menos, no entanto, todas são missionárias. O missionário é aquele que reconhece a Fé como um dom que deve ser partilhado. Ele tem de deixar passar a “água”, não a pode reter apenas para si. É um princípio de justiça, de garantia da própria experiência da fé. Sem o espírito missionário a fé murcha e perde o seu sabor. O espaço e o tempo em que se pode viver a experiência missionária varia de pessoa para pessoa. Santa Teresinha do Menino Jesus nunca saiu do seu convento em Lisieux (França) e no entanto foi uma grande missionária, ao ponto de ser considerada pela Igreja como uma das padroeiras das missões.

Foi neste espírito que há dois quase dois anos me deixei trazer para estas terras tao longínquas sem que o tivesse pedido ou imaginado, apenas desejado. Desejei continuar a servir a Deus fora de Portugal, fora do meu espaço de conforto, para ir a um lugar onde houvesse maior necessidade e onde pudesse ajudar os outros a crescerem e onde eu me pudesse tornar uma melhor pessoa. Quando voltei de Moçambique para Portugal, depois de lá ter vivido seis anos percebi que mesmo em Portugal não tinha deixado de ser missionário. Tinha passado a ser um missionário de Moçambique em Portugal e que tinha a obrigação de partilhar o que tinha aprendido e voltar a aprender com a realidade do meu pais tal como o encontrei. Descobri que estas saídas para outros mundos são de um grande interesse para a economia da Fé. Tratasse de uma experiência económica no bom sentido da palavra. Uma troca justa entre o que se leva e o que se acolhe.

Neste momento, estou em Timor Leste há um ano e meio e sinto que ainda estou a chegar. Não só me sinto permanentemente desafiado por uma nova cultura, uma nova língua, mas sobretudo por uma nova maneira de viver o sagrado, complexa e muito rica. Posso dizer que o desafio tem sido mais exigente que África, não porque África não fosse complexa, mas porque encontrei aqui uma realidade misteriosa que se fechou a sete chaves por uma longa experiência traumática de sofrimento de história recente. É difícil entrar na lógica da maneira de ser do Timorense, assim como é difícil compreender os códigos dos seus laços sagrados com Deus e com os outros. Existe uma permanente defesa de algo que é “lulic” (sagrado) e que não quer ser devassado. No entanto a fé precisa também de uma abertura mínima, “não há segredos” desde que Jesus tudo revelou sobre o Pai. Uma das dificuldades que aqui encontrei, ao nível da fé, é exatamente esta sua dimensão missionária. Para sairmos de nós mesmos é preciso saber de onde viemos e quem nos envia. Uma realidade da fé ancorada apenas no formalismo de uma Religião e no medo não pode ser missionaria. Só um conhecimento vivencial da pessoa de Jesus Ressuscitado pode realmente impelir-nos num verdadeiro movimento missionário. Penso que uma das minhas possibilidades de ajudar em Timor Leste passa por dar a conhecer a pessoa de Jesus. E uma das maneiras de O dar a conhecer é ajudar a encontrá-Lo nos vestígios da Sua presença e verdade sobretudo nos rostos humanos que vou encontrando. Como fotógrafo estou ao serviço da “imagem e semelhança de Deus”, é esse o lema do pequeno estúdio fotográfico que abri em Taibesse no dia de São Miguel Pró sj. Ali fotografo as pessoas que me aparecem no estúdio e procuro dar a conhecer a beleza e a verdade dos seus rostos e corpos. Tem sido uma experiência muito interpeladora e exigente.

Sei também que Deus me trouxe a Timor porque achou que era oportuno para mim.  Posso crescer mais como homem e como padre jesuíta. Aqui tenho o meu “jardim sagrado”, esse lugar onde deus passeia ao final da tarde e me convida a ser um “novo adão”. Por isso é minha obrigação estar atento ao cuidado que a vida tem por mim, sobretudo através das atenções das pessoas e dos desafios que vou vivendo e me são oferecidos.

Tanto o trabalho no estúdio fotográfico Miguel Pró, como nas saídas de dez dias que faço todos os meses aos Distritos, têm-me permitido adquirir um conhecimento mais real de Timor Leste e de suas gentes. Há medida que vou tendo este conhecimento procuro partilhá-lo através de um álbum fotográfico que envio todos os meses a jesuítas e muitas pessoas amigas. Com a oração vou também incorporando este conhecimento nas reflexões espirituais e nos retiros que vou dando.

Ao final de oito meses em Timor regresso todos os anos a Portugal quatro meses para ser missionário lá. Também mantenho ainda contacto com Moçambique através de um programa de bolsas de estudo que mantenho neste país. Este vai e vem entre vários países, embora cansativo e desgastante, acaba por ser muito proveitoso para o que posso dizer sobre Deus e na forma como posso concretizar a Sua bondade.

Termino com uma pequena imagem que me inspira quando penso na minha missão como missionário. Gosto de imaginar o ser humano como um “arco-íris”, imagem e semelhança do grande “arco-íris” que é Jesus. As cores de Jesus são as cores fundamentais de todo o ser humano. Nele todas elas estão vivas e intensas. Em mim algumas dessas cores perderam intensidade e outras acabaram mesmo por se apagar. Quando mudo de país, e de cultura, apercebo-me que as cores que em mim se apagaram ou esmorecerem nesse país existem em abundância. Ao mesmo tempo reconheço que levo algumas cores do meu arco iris que podem enriquecer a realidade com que entro em contacto e que as não têm ou estão esmorecidas. Os nossos arco-íris completam-se através do encontro de uns com outros e o próprio conhecimento de Jesus consolida-se com esta experiência de reciprocidade. Só é precioso ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Estou ao serviço desta missão, a de avivar as cores de Deus no humano a quem fui enviado e tornar-me mais humano pela riqueza de receber cores daqueles a quem fui enviado. Deus é luz e é na Sua luz que podemos construir uma verdadeira Fraternidade e uma verdadeira Humanidade. Termino com um cumprimento muito usual em Moçambique e que expressa muito bem o espírito missionário: – “Estamos juntos”! [By: Pe. Paulo Teia, SJ]